Como fazer exercício?

Como o treino funciona, de onde ele vem, quanto se mexer, como medir sua intensidade e como evoluir.

O que acontece no seu corpo quando você treina

O que é exercício? Quase todo mundo sabe que deveria se exercitar. Pouquíssima gente sabe o que acontece no corpo quando se exercita. Como isso funciona de verdade? Nos próximos minutos, você vai aprender o que os treinadores usam para planejar, vai medir sua intensidade como eles e vai sair daqui com um plano para continuar.

Aliás, esta é a minha casa no MindHaOS, e é neste cômodo de Exercício que eu organizo as minhas rotinas. Vamos começar.

Treinar é, literalmente, aplicar um estresse controlado. Durante o treino, seu desempenho cai: você se cansa, gasta energia, e o músculo sofre pequenas microlesões. O que te deixa mais forte não acontece ali, e sim depois, enquanto você descansa: o corpo se recupera e se prepara para a próxima vez, um pouco acima de onde estava.

Isso se chama adaptação, e ela segue quatro princípios. O primeiro é a sobrecarga progressiva: se você faz sempre a mesma coisa, o corpo deixa de ter motivo para mudar, então é preciso pedir um pouquinho mais do que da última vez.

O segundo princípio é a especificidade: você se adapta ao que pratica. Correr melhora sua resistência; levantar peso melhora sua força. O terceiro é a recuperação: sem descanso não há adaptação, só cansaço acumulado.

E o quarto, a constância. As adaptações são reversíveis: se você para de treinar por algumas semanas, o corpo começa a perder o que ganhou. Por isso, pouco e sempre funciona melhor do que muito de vez em quando: vinte minutos quatro dias por semana ganham de duas horas num dia só.

Uma breve história do exercício

Segundo a tradição, os primeiros Jogos Olímpicos aconteceram no ano setecentos e setenta e seis antes de Cristo. Os gregos treinavam no ginásio, uma palavra que vem de gymnós, que quer dizer nu. E sim: eles treinavam assim mesmo.

Já naquela época se intuía o seu valor para a saúde. A Hipócrates, o pai da medicina, é atribuída a ideia de que comer bem não basta para se manter saudável: também é preciso se mexer.

No século dezenove nasceram os primeiros métodos de ginástica. Em mil oitocentos e onze, Friedrich Ludwig Jahn abriu em Berlim um campo de ginástica ao ar livre, e na Suécia Pehr Henrik Ling criou uma ginástica pensada para a saúde.

A grande virada veio em mil novecentos e cinquenta e três. O médico britânico Jeremy Morris comparou os motoristas dos ônibus de dois andares de Londres, que passavam o dia sentados, com os cobradores, que subiam e desciam escadas o dia inteiro. Os cobradores tinham bem menos infartos. Foi um dos primeiros estudos a mostrar que se mexer protege o coração.

Em mil novecentos e sessenta e oito, o médico Kenneth Cooper publicou o livro Aerobics e popularizou a palavra aeróbico. Nos anos setenta, chegou a febre da corrida.

E hoje a Organização Mundial da Saúde publica recomendações baseadas em milhares de estudos. O que antes era intuição agora é ciência, e é isso que vamos ver.

As quatro capacidades que você deve treinar

Um plano completo trabalha quatro capacidades: resistência, força, mobilidade e equilíbrio. Cada uma tem a sua dose.

Resistência: a Organização Mundial da Saúde recomenda aos adultos entre cento e cinquenta e trezentos minutos por semana de atividade moderada, ou de setenta e cinco a cento e cinquenta de atividade vigorosa. Ir além dessa faixa traz benefícios adicionais.

Força: pelo menos dois dias por semana, trabalhando os grandes grupos musculares. Não é só estética: a massa muscular protege suas articulações, seu metabolismo e, com os anos, a sua independência.

Mobilidade: a capacidade de mover uma articulação em toda a sua amplitude, com controle. Alguns minutos por dia, principalmente de quadril, ombros e coluna, fazem todo o resto sair melhor.

E equilíbrio: a partir dos sessenta e cinco anos, a OMS recomenda treiná-lo três dias por semana, porque reduz o risco de quedas. Mas treinar antes é o melhor jeito de chegar lá em forma.

Meça sua intensidade como um profissional

A pergunta mais importante não é quanto tempo você treina, e sim com que intensidade. Existem três ferramentas simples para medir isso, e nenhuma precisa de aparelhos caros.

A primeira é a escala de esforço percebido, de um a dez. Um é ficar sentado; dez, o esforço máximo que você consegue dar. A atividade moderada fica mais ou menos entre cinco e seis, e a vigorosa entre sete e oito. Se você consegue conversar, mas não cantar, está no moderado.

A segunda é para a força: as repetições em reserva. Ao terminar uma série, pergunte a si mesmo quantas a mais você conseguiria fazer com boa técnica. Se a resposta for duas ou três, é uma zona muito eficaz para evoluir sem chegar perto demais da falha.

A terceira é a frequência cardíaca. Uma estimativa comum da sua máxima é duzentos e oito menos zero vírgula sete vezes a sua idade. É aproximada, mas serve para te orientar. Digite sua idade aqui embaixo e você vai ver as suas zonas.

Muita gente treina sempre no mesmo ponto intermediário: pesado demais para se recuperar, leve demais para melhorar. Uma estratégia muito usada por atletas de resistência é fazer a maior parte do cardio leve, na zona dois, onde dá para respirar pelo nariz, e deixar só uma parte pequena realmente intensa.

Como evoluir semana a semana

Para evoluir na força existe um método simples e muito eficaz: a progressão dupla. Você escolhe uma faixa, por exemplo de oito a doze repetições. Quando conseguir doze em todas as séries com boa técnica, aumenta a carga ou a dificuldade e volta a começar em oito.

Sem pesos também dá para fazer sobrecarga: mais repetições, uma série a mais, descer mais devagar ou tirar apoios, como passar da flexão com os joelhos no chão para a flexão completa.

No cardio, uma referência prática é não aumentar o volume semanal mais de dez por cento de cada vez. Seus músculos e seu coração se adaptam rápido; tendões e articulações, mais devagar.

Com tudo isso, você pode montar um plano de quatro semanas, como os que eu organizo no meu cômodo de Exercício. Escolha quantos dias você tem e o seu nível, e aqui embaixo eu sugiro como dividir força, cardio e mobilidade, com a progressão já incluída.

E, de tempos em tempos, muitos treinadores programam uma semana de descarga: os mesmos exercícios, menos volume. Não é retroceder; é deixar a adaptação se consolidar.

Recuperação: onde você realmente melhora

Lembre-se: você melhora enquanto descansa. O sono é a ferramenta de recuperação mais poderosa que existe; para um adulto, a recomendação é dormir sete horas ou mais.

A alimentação também conta. Para quem treina, o Colégio Americano de Medicina do Esporte coloca a proteína entre um vírgula dois e dois gramas por quilo de peso por dia, distribuída em várias refeições.

E não esqueça o que acontece fora do treino. Caminhar, subir escadas, levantar da cadeira a cada hora: esse movimento do dia a dia soma muito no fim do dia e compensa o tempo que você passa sentado.

E escute o seu corpo. Sentir cansaço depois de treinar é normal. Uma dor aguda numa articulação, tontura, falta de ar desproporcional ou dor no peito não são: se aparecerem, pare e procure um médico.

Resumindo: respeite os quatro princípios, treine as quatro capacidades, meça sua intensidade, evolua aos poucos com um plano e proteja a sua recuperação. Com isso, você já sabe mais de treino do que a maioria.

Se você quiser acompanhar o seu plano como eu acompanho o meu, o cômodo de Exercício do MindHaOS tem o cronômetro, as suas sequências e mais de cento e sessenta exercícios animados. O link está na descrição, e lá também tem este guia em versão interativa, para você revisar com calma. No próximo guia, seguimos com outra pergunta. Até mais.

Este guia é informativo e não substitui a orientação de um médico. Se você tem alguma doença ou lesão, está grávida ou está há muito tempo parado, consulte um profissional antes de começar.

  1. OMS. Diretrizes da OMS para atividade física e comportamento sedentário (2020).
  2. OMS. Atividade física — Nota descritiva.
  3. American College of Sports Medicine. ACSM's Guidelines for Exercise Testing and Prescription.
  4. ACSM, Academy of Nutrition and Dietetics e Dietitians of Canada. Nutrition and Athletic Performance (2016).
  5. Tanaka H. et al. Age-predicted maximal heart rate revisited. J Am Coll Cardiol (2001).
  6. CDC. Measuring Physical Activity Intensity.
  7. AASM/SRS. Recommended Amount of Sleep for a Healthy Adult (2015).
  8. Morris J. N. et al. Coronary heart-disease and physical activity of work. The Lancet (1953).
  9. Cooper K. H. Aerobics. M. Evans and Company (1968).