Como se entreter melhor?
Por que você demora tanto para escolher o que ver, por que a rolagem e o “brain rot” não te descansam, se é melhor maratonar ou ver um episódio por dia, por que as pausas e os spoilers não estragam nada, se os videogames te fazem bem ou mal, por que jogar com outras pessoas, por que ler, como fazer o que você vê durar e um plano para continuar.
Por que você demora tanto para escolher?
Como se entreter melhor? A gente passa mais de dez minutos só escolhendo o que ver. E às vezes, depois de tanto procurar, a gente desiste e não vê nada. E se o problema não fosse o quanto você se diverte, mas como? Hoje você vai ver o que diz a ciência, e vai sair com um plano para aproveitar mais o seu tempo livre.
Aliás, esta é a minha casa no MindHaOS, e repara: hoje ela está em pleno apocalipse, porque não existe plano melhor para o fim do mundo do que ficar em casa com um bom filme. Neste cômodo eu guardo tudo o que vejo, leio e jogo.
Em 2023, a empresa Nielsen perguntou nos Estados Unidos quanto tempo a gente leva para escolher o que ver: dez minutos e meio, em média. Quatro anos antes, eram pouco mais de sete.
Parece pouco, mas some: dez minutos toda noite são mais de sessenta horas por ano, só procurando. Veja quantas são as suas.
O truque é decidir antes de sentar: tenha uma lista do que quer ver e, se em cinco minutos não escolher, coloque o primeiro da lista.
No meu cômodo de Entretenimento eu guardo o meu arquivo: o que vi, o que li, o que joguei e o que ainda falta, organizado por gênero.
Por que a rolagem não te descansa?
Em 2024, o dicionário de Oxford escolheu como palavra do ano “brain rot”, algo como “cérebro podre”: aquela sensação de entorpecimento depois de horas vendo conteúdo sem pensar.
Em 2015, Philippe Verduyn e sua equipe viram que olhar as redes sem participar, só passando publicações, piorava como as pessoas se sentiam ao longo do dia. Usá-las para conversar com os outros não tinha esse efeito.
E em 2018, Melissa Hunt e sua equipe pediram a estudantes que usassem as redes só trinta minutos por dia durante três semanas. Eles se sentiram menos sozinhos e menos tristes. Veja quanto a sua rolagem soma em um ano.
O truque não é largar as redes, é escolher: antes de abrir uma, pergunte a si mesmo o que você procura. Se é descansar, escolha algo que você queira mesmo ver e, quando acabar, feche.
Maratona ou um episódio por dia?
Em 2017, Jared Horvath e sua equipe colocaram estudantes para ver uma série: uns de uma vez só, outros um episódio por dia e outros um por semana. Os da maratona gostaram menos e, meses depois, lembravam pior.
E tem outra conta. Naquele mesmo ano, Liese Exelmans e Jan Van den Bulck viram que os jovens que maratonavam dormiam pior e acordavam mais cansados: a cabeça fica acelerada depois do último episódio.
Veja quanto uma série dura no seu ritmo, e a que horas você vai dormir com mais um episódio.
Por isso aqui cada série tem o seu estado: Pluto está na minha lista para ver, e vou assistir um episódio de cada vez.
Por que as pausas e os spoilers não estragam nada?
Em 2009, Leif Nelson, Tom Meyvis e Jeff Galak colocaram pessoas para ver um programa com intervalos e sem eles. Com intervalos, gostaram mais: o prazer vai se gastando com o tempo, e a pausa o reinicia.
E outra surpresa: em 2011, Jonathan Leavitt e Nicholas Christenfeld deram contos para ler, uns com o final contado e outros sem. Em média, agradaram mais os que já traziam o final.
Então não tenha medo de uma pausa: levante, comente o que viu e volte com mais vontade. O que importa de verdade numa história não é só como ela termina.
E se eu quero saber do que se trata algo antes de ver, aqui eu peço um resumo com inteligência artificial, sem spoilers enquanto eu não terminar.
Os videogames te fazem bem ou mal?
Em 2014, Andrew Przybylski estudou quase cinco mil jovens de dez a quinze anos no Reino Unido. Os que jogavam menos de uma hora por dia estavam um pouco melhor do que os que não jogavam, e os de mais de três horas, um pouco pior.
E em 2022, com quase trinta e nove mil jogadores adultos, Matti Vuorre e sua equipe viram que as horas quase não mudavam como eles se sentiam. O que contava era por que jogavam: por prazer, bem; por sentir que tinham que jogar, pior.
Então, antes de jogar, faça uma pergunta a si mesmo: jogo porque quero, ou porque não consigo parar? Veja o que dá.
No meu cômodo tenho vinte e três jogos para um momento: quebra-cabeças, arcade, cartas e tabuleiro, cada um com a sua dificuldade.
Por que jogar com outras pessoas?
Em 2020, Drew Altschul e Ian Deary acompanharam mais de mil pessoas na Escócia, todas nascidas em 1936. Quem jogava mais jogos de tabuleiro e de cartas perdeu menos memória e agilidade entre os setenta e os setenta e nove anos.
Se você está gostando do guia, deixe o seu gostei, inscreva-se para não perder o próximo e compartilhe com aquela pessoa que sempre ganha de você nas cartas.
E compartilhar muda tudo: em 2014, Erica Boothby e sua equipe viram que um chocolate ficava mais gostoso quando outra pessoa o provava ao mesmo tempo. O que você vive acompanhado se sente mais.
Por isso aqui também tem jogos em grupo, como perguntas para se conhecer ou debates, e mesas online para jogar com seus amigos.
E ler, conta?
Em 2016, Avni Bavishi, Martin Slade e Becca Levy acompanharam durante doze anos mais de três mil e quinhentas pessoas com mais de cinquenta anos. As que liam livros viveram, em média, quase dois anos a mais do que as que não liam.
E não precisa de muito: com meia hora por dia, veja quantos livros cabem em um ano.
Um bom momento é antes de dormir: o livro no lugar de mais um episódio. Deixe-o no travesseiro e o celular longe da cama.
Meus livros também ficam aqui: Anathem está em andamento, e Cosmos já tem as suas cinco estrelas.
Como fazer isso durar?
Em 2014, Ting Zhang e sua equipe pediram a estudantes que guardassem numa cápsula do tempo coisas do dia a dia: o último filme que viram, uma música, uma conversa. Três meses depois, reler aquilo os interessou muito mais do que tinham imaginado.
Então, quando terminar algo, anote três coisas: quantas estrelas você dá, uma frase sobre o que ficou e com quem você viu.
Com o tempo, as suas notas te dizem do que você gosta de verdade, e escolher o que ver fica muito mais fácil.
Os meus cartões guardam tudo isso: na frente, a capa; e ao tocar, ele vira com as minhas estrelas e a minha resenha.
Como seguir? Seu plano para continuar
Na primeira semana, monte a sua lista do que quer ver e veja quanto tempo vai embora nas redes sem você perceber.
No primeiro mês, coloque um limite nas maratonas: dois episódios por noite, e o resto fica para amanhã.
E uma noite por semana, troque a tela por um jogo de tabuleiro ou um livro, melhor ainda se for com alguém.
E as minhas pendências eu levo como uma meta: clássicos de ficção científica pendentes, um de cada vez.
Resumindo: decida antes de sentar; rolagem com intenção, não no automático; um episódio de cada vez, e as pausas não atrapalham; jogue por prazer e com outras pessoas; leia um pouco todo dia; e anote o que ficou.
No cômodo de Entretenimento do MindHaOS você pode guardar o seu arquivo de filmes, séries, livros e videogames, com as suas resenhas, e jogar os seus jogos de tabuleiro. Monte sua casa mental grátis hoje: o link está na descrição. E no próximo guia: como cuidar dos seus veículos?
Este guia é informativo: os estudos citados resumem seus resultados de forma simples, e muitos mostram relações, não causas. Se você sente que não consegue parar de jogar ou de olhar telas mesmo querendo, converse com alguém de confiança ou com um profissional.
- Nielsen. State of Play 2023: Streaming viewers spend 10.5 minutes deciding what to watch (2023).
- Oxford University Press. Oxford Word of the Year 2024: brain rot (2024).
- Verduyn P., Lee D. S., Park J., Shablack H., Orvell A., Bayer J., Ybarra O., Jonides J., Kross E. Passive Facebook usage undermines affective well-being: Experimental and longitudinal evidence. Journal of Experimental Psychology: General (2015).
- Hunt M. G., Marx R., Lipson C., Young J. No more FOMO: Limiting social media decreases loneliness and depression. Journal of Social and Clinical Psychology (2018).
- Horvath J. C., Horton A. J., Lodge J. M., Hattie J. A. C. The impact of binge watching on memory and perceived comprehension. First Monday (2017).
- Exelmans L., Van den Bulck J. Binge viewing, sleep, and the role of pre-sleep arousal. Journal of Clinical Sleep Medicine (2017).
- Nelson L. D., Meyvis T., Galak J. Enhancing the television-viewing experience through commercial interruptions. Journal of Consumer Research (2009).
- Leavitt J. D., Christenfeld N. J. S. Story spoilers don't spoil stories. Psychological Science (2011).
- Przybylski A. K. Electronic gaming and psychosocial adjustment. Pediatrics (2014).
- Vuorre M., Johannes N., Magnusson K., Przybylski A. K. Time spent playing video games is unlikely to impact well-being. Royal Society Open Science (2022).
- Altschul D. M., Deary I. J. Playing analog games is associated with reduced declines in cognitive function: a 68-year longitudinal cohort study. The Journals of Gerontology: Series B (2020).
- Boothby E. J., Clark M. S., Bargh J. A. Shared experiences are amplified. Psychological Science (2014).
- Bavishi A., Slade M. D., Levy B. R. A chapter a day: Association of book reading with longevity. Social Science & Medicine (2016).
- Zhang T., Kim T., Brooks A. W., Gino F., Norton M. I. A "present" for the future: The unexpected value of rediscovery. Psychological Science (2014).