Por que você deve escrever?

Por que escrever tira o seu medo, por que a página em branco assusta, como escrever organiza a sua cabeça, por que a humanidade escreve há cinco mil anos, por que as histórias ficam na memória, como montar uma boa história, como escrever melhor a cada dia e um plano para começar.

Por que escrever tira o seu medo?

Por que você deve escrever? Quase todos nós escrevemos todos os dias: mensagens, listas, e-mails. Mas quase ninguém escreve para si mesmo, e perde algo que a ciência mede há quarenta anos. O que acontece na sua cabeça quando você escreve? Hoje você vai ver, e vai sair com um plano para começar a escrever já nesta semana.

Aliás, esta é a minha casa no MindHaOS, e é neste cômodo que eu escrevo. E repare na casa: hoje ela é uma casa mal-assombrada, como o medo da página em branco, e a cada etapa do guia ela vai mudar. Vamos começar.

Vamos começar pelo que assusta. Em 1986, James Pennebaker e Sandra Beall pediram a estudantes que escrevessem quinze minutos, quatro dias seguidos, sobre a coisa mais difícil que já tinham vivido. Nos meses seguintes, eles foram menos vezes ao médico do que quem escreveu sobre coisas sem importância.

E funciona logo antes daquilo que te dá medo. Em 2011, Gerardo Ramírez e Sian Beilock pediram a estudantes que escrevessem dez minutos sobre o nervosismo antes de uma prova. Eles foram melhor, e os mais nervosos foram melhor do que todos.

Por quê? Porque a preocupação ocupa espaço na sua memória de trabalho, aquela que você usa para pensar. Ao escrever, você a tira de lá e a deixa no papel.

Olhe a casa: continua mal-assombrada, como aquilo que às vezes temos medo de escrever. Aqui, no meu cômodo, eu também escrevo o que me assusta: a folha guarda isso para que a minha cabeça não precise guardar.

Por que a página em branco dá tanto medo?

O medo mais comum de quem escreve é a página em branco. E quase sempre vem da mesma coisa: querer que saia perfeito de primeira.

Em 1973, o professor Peter Elbow propôs um remédio: a escrita livre. Dez minutos sem parar, sem apagar e sem corrigir. Se você não sabe o que escrever, escreve “não sei o que escrever” até sair outra coisa.

A escritora Anne Lamott disse sem rodeios: quase todo bom texto começa com um primeiro rascunho horrível. O importante é escrevê-lo, não que fique bonito.

E um truque de Ernest Hemingway: pare de escrever quando já souber o que vem depois. Assim, no dia seguinte, a página não está em branco.

No meu cômodo, eu abro um livro e escrevo sem medo: a folha se salva sozinha enquanto escrevo, e eu corrijo depois.

Por que escrever organiza a sua cabeça?

Em 1927, o romancista E. M. Forster citou uma pergunta famosa: como vou saber o que penso antes de ver o que digo? Ao escrever, as ideias soltas têm que fazer fila, uma atrás da outra.

E isso ajuda a aprender. Em 2004, Robert Bangert-Drowns e sua equipe revisaram quarenta e oito programas escolares em que se escrevia para aprender. Funcionou, principalmente quando os alunos escreviam sobre o que entendiam e o que não entendiam.

Por isso escrever também serve para decidir: coloque o problema numa frase, escreva suas opções e o que aconteceria com cada uma. O que na sua cabeça era um nó, no papel vira uma lista.

Na minha folha, cada título que eu escrevo monta o índice sozinho, e assim eu vejo a forma do que estou pensando.

Por que a humanidade escreve há cinco mil anos?

A escrita nasceu há uns cinco mil anos na Mesopotâmia, em cidades como Uruk, e não foi para poemas: foi para contar. Cevada, cerveja, ovelhas. Escrever era a forma de não esquecer.

Séculos depois, os navios levavam um diário de bordo: todo dia, o capitão anotava o rumo, o vento e o tempo.

E essas anotações continuam servindo. Desde 2010, milhares de voluntários do projeto Old Weather passaram para o computador os diários de bordo de navios de um século atrás, e hoje os cientistas usam mais de um milhão desses dados para estudar o clima.

E olhe: agora a casa é um navio pirata, como os que levavam seu diário de bordo. O meu mora aqui, na minha estante: um livro por viagem, por projeto ou por ideia.

Por que uma história fica gravada em você?

Em 1969, Gordon Bower e Michael Clark deram a estudantes listas de dez palavras. Uns só as repassaram; outros inventaram uma história que as unisse. No fim, os da história lembraram cerca de sete vezes mais palavras.

Se você está gostando do guia, deixe o seu gostei, inscreva-se para não perder o próximo e compartilhe com aquela pessoa que diz que um dia vai escrever um livro.

E as histórias têm formas. Em 2016, uma equipe da Universidade de Vermont analisou com computadores mais de mil e trezentos romances e descobriu que quase todos seguem seis formas, como ir de pobre a rico, ou cair num buraco e sair dele.

Em cada um dos meus livros eu guardo os personagens, os lugares e os atos da história, e o nome deles fica marcado no texto.

Como se monta uma boa história?

Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que uma história completa tem começo, meio e fim. Parece óbvio, mas é a base de quase tudo: alguém quer algo, algo o impede, e no final ele muda.

Um jogo para começar: escolha um personagem, um lugar e um problema, e você já tem uma história. Uma pirata que tem medo de água. Um astronauta que esqueceu como voltar. Veja quantas saem.

E uma regra das oficinas de escrita: mostre, não conte. Em vez de “ela estava com medo”, escreva “as mãos dela tremiam”. Deixe que quem lê descubra.

E em Relações eu desenho como os meus personagens se ligam: quem ama quem, e quem guarda um segredo de quem.

Como escrever melhor a cada dia?

Em 1990, Robert Boice acompanhou durante dez semanas professores que queriam escrever mais. Os que esperavam a inspiração escreveram uns dois décimos de página por dia. Os que tinham um encontro diário com a folha, mais de três páginas.

E o que é bom sai na revisão. Hemingway contou que reescreveu trinta e nove vezes a última página de Adeus às Armas. Não porque não soubesse escrever, mas porque sabia revisar.

Um truque para revisar: leia em voz alta. Onde você tropeça, quem ler também vai tropeçar.

E a casa agora viaja pelo espaço, rumo a tudo o que você vai escrever. Se eu travo, na minha folha posso pedir ideias à inteligência artificial para continuar, melhorar ou resumir. Mas a história quem escreve sou eu.

Como seguir? Seu plano para continuar

Na primeira semana, dez minutos de escrita livre todo dia, no mesmo horário. Sem corrigir e sem mostrar para ninguém.

No primeiro mês, escolha um projeto pequeno: um conto curto, uma carta ou o diário dos seus dias. E revise em voz alta antes de dar por terminado.

E um exercício para o final: escreva para o seu eu do futuro. Em 2001, Laura King pediu a estudantes que escrevessem vinte minutos, quatro dias, sobre a melhor vida que conseguiam imaginar, e eles terminaram mais animados.

E quando eu termino algo, aqui eu baixo, imprimo ou compartilho para escrever junto com outras pessoas.

Resumindo: escrever tira o seu medo e organiza a sua cabeça; comece sem buscar a perfeição; as histórias ficam, então conte as suas; e escreva um pouco todo dia, porque o que é bom sai na revisão.

No cômodo Escrita do MindHaOS você pode escrever os seus livros, guardar seus personagens, lugares e atos, e escrever sozinho ou com a ajuda da inteligência artificial. Monte sua casa mental grátis hoje: o link está na descrição. E no próximo guia: como encontrar um passatempo e mantê-lo?

Este guia é informativo: os estudos citados resumem seus resultados de forma simples, e escrever não substitui a ajuda de um profissional. Se o que te preocupa não te deixa viver em paz, fale com alguém de confiança ou com um especialista.

  1. Pennebaker J. W., Beall S. K. Confronting a traumatic event: Toward an understanding of inhibition and disease. Journal of Abnormal Psychology (1986).
  2. Ramirez G., Beilock S. L. Writing about testing worries boosts exam performance in the classroom. Science (2011).
  3. Elbow P. Writing Without Teachers. Oxford University Press (1973).
  4. Lamott A. Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life (1994).
  5. Hemingway E. Monologue to the Maestro: A High Seas Letter. Esquire (outubro de 1935).
  6. Forster E. M. Aspects of the Novel (1927).
  7. Bangert-Drowns R. L., Hurley M. M., Wilkinson B. The effects of school-based writing-to-learn interventions on academic achievement: A meta-analysis. Review of Educational Research (2004).
  8. Schmandt-Besserat D. How Writing Came About. University of Texas Press (1996).
  9. Old Weather: projeto de ciência cidadã que transcreve diários de bordo de navios (desde 2010).
  10. Bower G. H., Clark M. C. Narrative stories as mediators for serial learning. Psychonomic Science (1969).
  11. Reagan A. J., Mitchell L., Kiley D., Danforth C. M., Dodds P. S. The emotional arcs of stories are dominated by six basic shapes. EPJ Data Science (2016).
  12. Aristóteles. Poética (século IV a.C.).
  13. Boice R. Professors as Writers: A Self-Help Guide to Productive Writing. New Forums Press (1990).
  14. Plimpton G. Ernest Hemingway, The Art of Fiction No. 21. The Paris Review (1958).
  15. King L. A. The health benefits of writing about life goals. Personality and Social Psychology Bulletin (2001).